Crise climática: por que os cuidados com a saúde precisam entrar nessa conversa?
Entenda como a crise climática afeta a saúde e por que a possibilidade de um novo episódio de El Niño reforça a importância de se preparar para eventos extremos.

Por muito tempo, as mudanças climáticas pareceram um problema do futuro. Hoje, temperaturas recordes e eventos extremos mostram que seus impactos já fazem parte do presente. Desde a década de 1990, a mortalidade relacionada ao calor aumentou 63%¹ e, em 2026, a possibilidade de um super El Niño reforça a atenção para a relação entre clima e saúde.²,³

 

1. Como a crise climática afeta a saúde?

O calor extremo é uma das formas mais diretas pelas quais a crise climática afeta a saúde. A Europa registrou mais de 10 mil mortes devido à onda de calor extrema na segunda quinzena de junho deste ano.⁴ Temperaturas elevadas podem aumentar o risco de:⁵

  • Exaustão pelo calor e insolação, sendo esta última uma emergência médica;
  • Agravamento de doenças crônicas, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares e renais;
  • Alterações do sono, já que temperaturas noturnas elevadas podem prejudicar a qualidade do descanso.

A exposição não é igual para todos. Bebês e pessoas idosas estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos das altas temperaturas. Trabalhadores que exercem atividades ao ar livre também podem permanecer expostos ao calor por longos períodos, especialmente quando há poucas possibilidades de pausa, hidratação ou acesso a locais mais frescos.¹,⁶

Além disso, o risco não depende apenas da temperatura registrada no termômetro. Umidade, duração da exposição, esforço físico, condições de saúde e acesso a ambientes mais frescos e a outros recursos de proteção também influenciam os efeitos do calor sobre a saúde.¹,⁶

2. El Niño: por que o fenômeno exige atenção?

Além do aumento gradual da temperatura observado nas últimas décadas, fenômenos climáticos naturais, como o El Niño, também podem modificar temporariamente os padrões de chuva e temperatura. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño pode produzir diferentes impactos entre as regiões do Brasil:²

As mudanças nos padrões de temperatura e chuva também exigem atenção para as arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares podem criar condições favoráveis à proliferação do Aedes aegypti, embora fatores como urbanização, saneamento, circulação dos vírus e ações de controle também influenciam a transmissão.²

Em situações de emergência, outros riscos podem surgir. Aglomerações em abrigos temporários, por exemplo, exigem atenção para doenças respiratórias, enquanto a interrupção do acompanhamento e do acesso a medicamentos pode agravar a condição de pessoas com doenças crônicas.²

Em junho de 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicou um relatório sobre os principais riscos à saúde associados ao El Niño. O documento destaca que as condições mais secas e quentes, assim como os períodos de chuvas intensas, podem favorecer diferentes agravos à saúde pública, conforme resumido na Tabela 1.⁷

Tabela 1: Principais riscos à saúde em condições mais secas e mais úmidas.⁷

Tabela adaptada da referência 7.

3. Os impactos da crise climática vão além das doenças

Os impactos da crise climática nem sempre acontecem de forma isolada. Entre 2023 e 2024, diferentes regiões do país enfrentaram seca intensa, ondas de calor e inundações. Embora tenham ocorrido em contextos distintos, esses eventos mostram como os riscos climáticos podem se somar e gerar impactos que vão além do evento inicial. ⁸⁻¹⁰

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 ilustram como esses impactos podem ocorrer na prática. A interrupção do abastecimento de água e do esgotamento sanitário aumentou o risco de contaminação ambiental e dificultou o acesso à água segura. Em alguns municípios, análises identificaram concentrações de Escherichia coli e coliformes acima dos limites recomendados, favorecendo o aumento do risco de leptospirose, doenças diarreicas agudas, hepatite A e outras infecções de transmissão hídrica.⁹

Além disso, outros impactos que podem se sobrepor estão:¹,⁶

  • Moradia: perdas materiais, deslocamentos e necessidade de permanecer em abrigos temporários;
  • Água: interrupção do abastecimento e maior risco de contato com água contaminada;
  • Alimentação: impactos sobre a produção, a disponibilidade e o acesso aos alimentos;
  • Acesso ao cuidado: dificuldade para chegar aos serviços de saúde ou manter tratamentos e uso de medicamentos;
  • Saúde mental: sofrimento relacionado a perdas, deslocamentos, insegurança e ruptura da rotina.

Os efeitos de um evento climático, portanto, podem continuar mesmo depois que a chuva para, a água baixa ou a temperatura diminui. Ao comprometer condições fundamentais para a saúde, como moradia e alimentação, esses eventos podem prolongar seus impactos e aprofundar vulnerabilidades que já existiam.¹,⁶

4. Como se preparar para um período de chuvas intensas?

As orientações do Ministério da Saúde e da Defesa Civil destacam que a preparação antes de um evento extremo pode reduzir riscos e proteger vidas.¹²

Além disso, em caso de ondas de calor algumas medidas simples podem ajudar a reduzir os riscos à saúde:⁵

  • Evite a exposição ao sol nos horários mais quentes do dia, dando preferência a locais sombreados ou climatizados;
  • Mantenha o corpo hidratado, bebendo água regularmente, e utilize roupas leves e confortáveis;
  • Mantenha os ambientes internos mais frescos, reduzindo a entrada de calor e ventilando a casa nos períodos mais amenos;
  • Redobre a atenção com pessoas mais vulneráveis, como crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao calor;
  • Acompanhe os alertas das autoridades de saúde e defesa civil e siga as orientações locais em situações de calor extremo.

5. Como o setor da saúde pode se preparar para a crise climática

Diante de riscos que podem ser antecipados, a resposta não precisa começar apenas quando uma emergência acontece.

No setor público, a adaptação às mudanças climáticas exige incorporar os riscos climáticos e ambientais ao planejamento e à organização dos serviços de saúde. Entre as medidas estão:¹³

  • Integrar informações climáticas e ambientais ao planejamento em saúde;
  • Ampliar o uso de sistemas de alerta precoce, antecipando situações de maior risco;
  • Fortalecer a vigilância epidemiológica diante de mudanças no perfil e na ocorrência de doenças;
  • Priorizar as populações mais vulneráveis, considerando que a exposição e a capacidade de proteção não são iguais para todos.

Medidas de adaptação, como sistemas de alerta precoce, planejamento para eventos extremos e estratégias voltadas às populações mais vulneráveis, podem contribuir para que cidades, comunidades e serviços se preparem e reduzam danos.1,6

Ao mesmo tempo, muitas ações para enfrentar as causas da crise climática também produzem benefícios diretos para a saúde. Reduzir o uso de combustíveis fósseis e ampliar áreas verdes pode ajudar a amenizar o calor nas cidades. Espaços urbanos que favorecem caminhadas e o uso de bicicletas podem estimular a atividade física e contribuir para uma mobilidade menos poluente.1,6

Enfrentar a crise climática, portanto, exige tanto reduzir suas causas quanto se preparar para os impactos que já estão acontecendo. Para a saúde, isso significa deixar de olhar os eventos climáticos apenas como emergências pontuais e incorporar seus riscos ao planejamento, à vigilância e ao cuidado.²

Proteger a saúde em um clima em transformação começa antes da emergência: antecipando riscos, reduzindo vulnerabilidades e preparando os serviços para responder às necessidades de quem mais precisa.

6. Referências

  1. ROMANELLO, Marina et al. The 2025 report of the Lancet Countdown on health and climate change: climate change action offers a lifeline. The Lancet, v. 406, n. 10521, p. 2804-2857, 2025.
  2. FIOCRUZ. Observatório de Clima e Saúde. Nota Técnica — Chegada do El Niño e potenciais impactos sobre a saúde, os desastres e a organização da resposta pública no Brasil. 2026. Disponível em: https://climaesaude.icict.fiocruz.br/sites/climaesaude.icict.fiocruz.br/files/FINAL_Nota_T%C3%A9cnica_El_nino.docx%20(1).pdf. Acesso em: 15 jul. 2026.
  3. Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas.Possibilidade de ‘Super El Niño’ acende alerta para o Brasil. 2026. Disponível em: https://inpo.org.br/possibilidade-de-super-el-nino-acende-alerta-para-o-brasil/. Acesso em: 27 jul. 2026.
  4. Europa registra 10 mil mortes a mais durante pico da onda de calor. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/13/europa-teve-10-mil-mortes-a-mais-durante-onda-de-calor.ghtml. Acesso em: 27 jul. 2026.
  5. Word Health Organization (WHO). Heat and health. 2026. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-heat-and-health. Acesso em: 15 jul. 2026.
  6. HARTINGER, Stella M. et al. The 2025 Lancet Countdown Latin America report: moving from promises to equitable climate action for a prosperous future. The Lancet Regional Health–Americas, v. 52, 2025.
  7. Organização Pan-Americana da Saúde. Análise de Situação de Saúde Pública: El Niño nas Américas, 2026-2027. Disponível em: https://www.paho.org/sites/default/files/2026/07/phsaelninoregional2026por0.pdf. Acesso em: 27 jul. 2026.
  8. Brasil. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Entre 2023 e 2024, cerca de 60% do território brasileiro foi afetado pela seca extensa e intensa, aponta Nota Técnica do Cemaden. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/noticias-cemaden/entre-2023-e-2024-cerca-de-60-do-territorio-brasileiro-foi-afetado-seca-extensa-e-intensa-aponta-nota-tecnica-do-cemaden. Acesso em: 15 jul. 2026.
  9. Brasil. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Entre 2023 e 2024, cerca de 60% do território brasileiro foi afetado pela seca extensa e intensa, aponta Nota Técnica do Cemaden. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/noticias-cemaden/entre-2023-e-2024-cerca-de-60-do-territorio-brasileiro-foi-afetado-seca-extensa-e-intensa-aponta-nota-tecnica-do-cemaden. Acesso em: 15 jul. 2026.
  10. ONU News. Brasil teve 10 eventos climáticos extremos em 2024. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/03/1846766. Acesso em: 15 jul. 2026.
  11. Banco Interamericano de Desenvolvimento Divisão de Meio Ambiente, Desenvolvimento Rural e Gestão de Risco de Desastres. Avaliação dos efeitos e impactos das inundações no Rio Grande do Sul. 2024. Disponível em: https://publications.iadb.org/pt/avaliacao-dos-efeitos-e-impactos-das-inundacoes-no-rio-grande-do-sul. Acesso em: 27 jul. 2026.
  12. 12. Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha de Orientação à População no Período de Alerta de Chuvas Intensas. 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/enchentes/cartilha-de-orientacao-a-populacao-no-periodo-de-alerta-de-chuvas-intensas/view. Acesso em: 27 jul. 2026.
  13. Brasil. Ministério da Saúde. Mudanças climáticas desafiam organização do SUS e reforçam adaptação dos serviços de saúde. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/julho/mudancas-climaticas-desafiam-organizacao-do-sus-e-reforcam-adaptacao-dos-servicos-de-saude. Acesso em: 15 jul. 2026.
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