Como a comunicação e o letramento em saúde se conectam à telessaúde?
Explorando os desafios e oportunidades da comunicação entre profissionais e pacientes em um ambiente digital

A tecnologia está mudando nossa realidade a cada segundo e a saúde é um dos setores que mais ganha com esses avanços para todo seu ecossistema. Um excelente exemplo é a evolução do projeto SUS Digital no Brasil, uma iniciativa do Ministério da Saúde que visa modernizar e integrar os serviços de saúde no Brasil por meio de tecnologias digitais.¹

Dentre essas tecnologias, a Telessaúde é uma das principais estratégias do SUS Digital, utilizando ferramentas à distância para complementar o atendimento presencial. Essa abordagem amplia o acesso a especialistas, reduz filas de espera e agiliza diagnósticos e tratamentos. Além disso, facilita o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, permitindo que recebam orientações sem precisarem se deslocar.¹

Apesar de existir há décadas, a Telessaúde ganhou muita força com o advento da internet e pode ser definida como o uso das tecnologias de informação e telecomunicação para realizar ações de saúde à distância. Ainda sobre conceitos, é essencial esclarecer que a Telemedicina é a Telessaúde aplicada à medicina.²

Esse campo cresceu consideravelmente no Brasil nos últimos anos. Ainda assim, apesar da intensa proliferação de recomendações e regras, até a atual pandemia o país ainda carecia de um marco regulatório totalmente consolidado. O surgimento da COVID-19 marcou um momento chave na expansão e no uso da telessaúde para melhorar a resposta do sistema de saúde à crise da pandemia, visto que essa tecnologia se aplica desde a prevenção até cirurgias.³

Entre as aplicações da Telessaúde, podemos destacar inúmeras, como:

  • Triagem, referência e contrarreferência;
  • Pré-atendimento hospitalar e de emergência;
  • Telediagnóstico (exames, sinais e imagens);
  • Teleconsulta;
  • Avaliação pré-cirúrgica;
  • Seguimento pós-internação e cirurgias;
  • Monitoração remota de pacientes;
  • Telessocorro;
  • Tele-interconsulta/teleconsultoria;
  • Segunda opinião médica;
  • Rastreamento de doentes crônicos;
  • Gestão proativa de doentes crônicos;
  • Educação e orientação de pacientes.

Apesar de vermos o resultado da criação de um extenso e disseminado ecossistema digital individualizado e inteligente, a Telessaúde apresenta vários desafios e exigências adicionais, como: ética médica; segurança e proteção dos dados pessoais dos pacientes; acesso digital, considerando que no Brasil, 33,9 milhões de pessoas estão completamente desconectadas da internet; e a comunicação efetiva entre as partes envolvidas, a qual iremos discutir neste artigo.⁴,⁵

Nesse ponto, a comunicação e o letramento em saúde são essenciais para o sucesso da Telessaúde, especialmente quando consideramos a Telessaúde Assistencial entre profissionais e pacientes (teleconsultas e telemonitoramento). Isso porque a forma de comunicar influencia diretamente na capacidade dos pacientes de compreenderem, processarem e produzirem saúde a partir de informações, seja presencialmente ou à distância. 

Em resumo: toda essa tecnologia amplia o acesso aos serviços médicos, mas também pode aumentar as desigualdades, caso os pacientes não consigam interpretar corretamente as orientações fornecidas pelos profissionais de saúde.

Quatro pontos cruciais de apoio da comunicação à telessaúde

1. Acesso e compreensão da informação na telessaúde

O letramento em saúde refere-se à capacidade de obter, processar e entender informações básicas de saúde para tomar decisões informadas. Em Telessaúde, onde a comunicação ocorre à distância, isso se torna um desafio ainda maior. Um estudo com 670 participantes, elaborado pós-pandemia pela National Academies of Sciences, Engineering and Health (EUA), destacou que pacientes com baixo letramento em saúde têm maior dificuldade em engajar e seguir instruções médicas em telessaúde, o que pode levar a falhas no tratamento. 

Case: 

O Programa SUS Digital, desde o início de 2023 até julho de 2024, realizou mais de 8 milhões de teleatendimentos nos três níveis de atenção à saúde. Para superar barreiras de letramento, os núcleos de telessaúde utilizam linguagem simples e explicações diretas, tornando a informação acessível para diferentes níveis de escolaridade. 

2. Tecnologias e métodos de comunicação adaptados

A comunicação em telessaúde precisa ser adaptada às necessidades dos pacientes, utilizando recursos como:

  • Materiais visuais e vídeos para complementar explicações verbais;
  • Aplicativos interativos que permitem feedback e esclarecimento de dúvidas;
  • Uso de linguagem simples e acessível para diferentes níveis de letramento e inclusão;
  • Plataforma com uso de inteligência artificial e machine learning, para responder dúvidas sobre saúde baseadas no contexto da navegação personalizada do paciente.

Cases:

No Brasil, foi criado também o aplicativo Meu SUS Digital, uma ferramenta digital para que os cidadãos possam acompanhar e agendar diversos procedimentos, além de oferecer uma área de conteúdo em saúde para aumentar seu conhecimento.

No Sistema de Saúde do Reino Unido (NHS), o sucesso na comunicação da telessaúde com populações de baixa literacia se deu ao adotarem uma abordagem inclusiva e centrada no usuário. Utilizaram linguagem simples, design acessível e formatos visuais para facilitar o entendimento; trabalho com comunidades locais e parceiros sociais para adaptar conteúdos às necessidades culturais e linguísticas; suporte digital, como treinamentos e assistência técnica, para reduzir barreiras ao uso de tecnologia. Além disso, garantiram que os serviços digitais fossem co-projetados com usuários, promovendo confiança e engajamento.

Em 2025, a indústria farmacêutica Pfizer lançou uma nova experiência digital, a plataforma Health Answers, impulsionada por IA generativa, que permite que as pessoas façam perguntas sobre saúde e bem-estar e recebam respostas relevantes em tempo real. A plataforma resume informações de fontes confiáveis ​​e independentes, incluindo literatura científica disponível publicamente, visando fornecer respostas úteis em linguagem simples.¹⁰

3. Inclusão digital e redução de barreiras tecnológicas

A telessaúde requer o uso de tecnologia, mas muitos pacientes enfrentam barreiras digitais, como falta de acesso à internet ou dificuldade no uso de plataformas médicas. No Brasil, o acesso equitativo aos serviços de saúde digital ainda é um desafio, especialmente para populações em áreas rurais, marginalizadas ou com pouco acesso à tecnologia.

Cases: 

O programa Wi-Fi Brasil disponibiliza, via satélite, internet com velocidade de conexão de até 20 megabits por segundo, instalando antenas e roteadores em locais como praças públicas, escolas, assentamentos rurais, Unidades Básicas de Saúde (UBS), comunidades tradicionais e telecentros comunitários, conectando pacientes em áreas remotas com médicos para ampliar o acesso da população a serviços públicos de saúde.¹¹

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou recentemente kits de telessaúde ultraportáteis projetados para levar serviços especializados de atenção primária a comunidades remotas nas Américas. Esses kits incluem equipamentos e software necessários para estabelecer serviços de telemedicina em campo, permitindo o manejo de doenças complexas e o diagnóstico de condições como tuberculose, mesmo em locais de difícil acesso. A iniciativa visa democratizar o acesso a serviços integrais de atenção primária à saúde.¹²

4. Capacitação de profissionais de saúde 

​A capacitação de profissionais de saúde para atuarem de forma eficaz na telessaúde é essencial para garantir atendimentos de qualidade e promover a transformação digital no setor. Essa formação abrange desde o domínio de ferramentas tecnológicas para apoiar suas decisões clínicas até habilidades de comunicação e compreensão dos aspectos éticos e legais envolvidos.

Cases: 

No Brasil, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Escola Superior de Redes (ESR), lançou o Programa de Atualização Profissional em Saúde Digital (PAP-SD). Este programa oferece cursos gratuitos e online, como “Transformação Digital em Saúde: dos conceitos à prática”, que aborda fundamentos da saúde digital, segurança da informação, privacidade de dados e telessaúde.​¹³

Uma ferramenta tecnológica divisora de águas para os profissionais de saúde são os sistemas de apoio à decisão clínica (SADC). Elas são integradas aos prontuários eletrônicos e podem fornecer aos médicos informações para aconselhar os pacientes sobre suas condições de saúde, opções de tratamento e potenciais efeitos colaterais de uma didática e acionável. Os SADCs que incorporam a educação do paciente podem desempenhar um papel essencial nesse processo, pois eles podem fornecer conteúdo educacional alinhado à condição do paciente, ao plano de tratamento e à linguagem do paciente. Isso ajuda a preencher lacunas de comunicação e garante que os pacientes tenham as informações necessárias para tomar decisões informadas.¹⁴,¹⁵

Aqui na Ybrida apostamos na comunicação para apoiar a telessaúde e temos um projeto em desenvolvimento que envolve a produção de um banco de imagens e vídeos para ser usado como SADC e apoiar na educação dos pacientes, ampliando a efetividade da comunicação entre médico-paciente nas teleconsultas e teleorientações.

Conclusão

A conexão entre comunicação, letramento em saúde e telessaúde é crucial para garantir que os pacientes compreendam e sigam corretamente as orientações médicas e para tornar essa tecnologia mais eficaz, acessível e equitativa. Além disso, entender que acolhimento também é tecnologia e exceder barreiras culturais, institucionais e profissionais é uma fase importante no processo de difusão, consolidação e resolutividade da telemedicina. 

 

Referências Bibliográficas:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Informação e Saúde Digital. SUS Digital. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/seidigi/sus-digital. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  2. SABBATINI, Renato M. E. Telemedicina no Brasil: Evolução e Perspectivas. Disponível em: https://www.sabbatini.com/renato/papers/Telemedicina_Brasil_Evolucao_Perspectivas.pdf. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  3. KICHENAMOURTY, P. et al. Telemedicine in the COVID-19 Era: A Narrative Review. Journal of Medical Internet Research, v. 22, n. 6, p. e19582, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32490913/. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  4. SILVA, A. B. et al. Telessaúde como ferramenta de apoio à Atenção Primária à Saúde no Brasil. Saúde e Sociedade, v. 29, n. 1, p. e190847, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/htDNpswTKXwVr667LV9V5cP/. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Desafios e Avanços da Telemedicina no Brasil. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/periodicos/ccs_artigos/desafios_avanco_telemedicina.pdf. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  6. NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING, AND MEDICINE. Providing Health Literate Virtual Health Services: Proceedings of a Workshop—in Brief. Washington, DC: The National Academies Press, 2022. Disponível em: https://nap.nationalacademies.org/catalog/26490/providing-health-literate-virtual-health-services-proceedings-of-a-workshop. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  7. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Informação e Saúde Digital. SUS Digital. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/seidigi/sus-digital. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Meus SUS Digital. Disponível em: https://meususdigital.saude.gov.br/. Acesso em: 15 abr. 2025.

  9. NHS ENGLAND. Inclusive Digital Healthcare: A Framework for NHS Action on Digital Inclusion. Disponível em: https://www.england.nhs.uk/long-read/inclusive-digital-healthcare-a-framework-for-nhs-action-on-digital-inclusion/. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  10. PFIZER. Introducing Health Answers: Pfizer’s New Consumer Digital Product Providing Answers. Disponível em: https://www.pfizer.com/news/announcements/introducing-health-answers-pfizer-new-consumer-digital-product-providing-answers. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  11. AGÊNCIA GOV. Programa Wi-Fi Brasil leva acesso à telemedicina para comunidade no Baixo Madeira. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202501/programa-wi-fi-brasil-leva-acesso-a-telemedicina-para-comunidade-no-baixo-madeira. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  12. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Kit de Telessaúde Ultraportátil da OPAS leva serviços especializados à atenção. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/18-3-2025-kit-telessaude-ultraportatil-da-opas-leva-servicos-especializados-atencao. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  13. BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. MCTI impulsiona formação em saúde digital com novos cursos gratuitos da Escola Superior de Redes. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2025/03/mcti-impulsiona-formacao-em-saude-digital-com-novos-cursos-gratuitos-da-escola-superior-de-redes. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  14. SILVA, Diego F. J. Decisão e desfecho na Atenção Básica. Disponível em: http://irssl.org.br/wp-content/uploads/2022/10/25-DecisOo-e-desfecho-na-AB_-Diego-FJ-Silva.pdf. Acesso em: 15 abr. 2025.​

     

  15. MERATIVE. Health Literacy and Patient Education Tools. Disponível em: https://www.merative.com/blog/health-literacy-patient-education-tools. Acesso em: 15 abr. 2025.​
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