
Um silêncio que durou séculos: a ciência finalmente foca na saúde delas
Como a ciência está – finalmente – começando a enxergar as mulheres. E por que isso beneficia toda a sociedade.

Por anos, a ciência ignorou metade da população mundial. Sim, as mulheres – e fêmeas em modelos animais – foram sistematicamente excluídas de pesquisas.
Um estudo publicado na revista Nature revelou que, na pesquisa biomédica, os estudos com modelos animais usavam machos em 80% dos casos1, enquanto as fêmeas eram consideradas “variáveis demais” devido às suas flutuações hormonais. Essa decisão, além de refletir um viés sexista, criou uma lacuna gigantesca no entendimento da saúde feminina.
Como cientista e mulher, essa realidade sempre me incomodou. Por isso, escolhi trabalhar com modelos animais femininos. Se a ciência não olha para nós, então nós, mulheres cientistas, precisamos fazer isso por nós mesmas. Não foi uma decisão fácil – afinal, ainda há resistência e até desinteresse em estudar fêmeas. Um artigo de 2019 mostrou que, mesmo em áreas como a neurociência, onde as diferenças sexuais são críticas, apenas 49% dos estudos incluíam ambos os sexos.4
Quantas descobertas deixaram de ser feitas porque metade dos dados foi simplesmente descartada?
E o quanto ainda estamos atrasados nos avanços da saúde das mulheres por causa dessa negligência?
A exclusão não se limitou aos laboratórios. Até os anos 1990, os Estados Unidos, por exemplo, não exigiam que mulheres participassem de ensaios clínicos. Um relatório do Government Accountability Office (GAO) de 1992 mostrou que apenas 13% dos estudos financiados pelo National Institutes of Health (NIH) incluíam análises específicas por sexo.2 Isso resultou em tratamentos e medicamentos menos eficazes – ou até perigosos – para as mulheres.
Um exemplo clássico foi o zolpidem, um medicamento para insônia, que teve sua dosagem revisada em 2013 após descobrir que o metabolismo feminino processava a droga mais lentamente, aumentando os riscos de efeitos colaterais.3
Nesta newsletter, vou compartilhar com você algumas das descobertas mais recentes sobre a saúde das mulheres – e por que elas são tão importantes. Porque, finalmente, a ciência está começando a nos enxergar. E isso não é só uma vitória para as mulheres, mas para a ciência como um todo.
1. O cérebro feminino se remodela durante o ciclo menstrual – e a ciência finalmente está provando isso

Eu sabia. E, se você é mulher, provavelmente também. Aquela enxurrada de emoções, a sensibilidade aumentada e até a dificuldade de concentração durante o ciclo menstrual têm uma explicação científica.
Publicado na revista Nature Mental Health, o estudo escaneou o cérebro de 27 mulheres em seis momentos específicos do ciclo menstrual.5 Os resultados mostraram que a espessura da massa cinzenta no hipocampo – uma região crítica para a memória, o aprendizado e a regulação emocional – varia significativamente em resposta às flutuações hormonais. Quando os níveis de estrogênio aumentam, por exemplo, a massa cinzenta se expande, enquanto a progesterona parece ter o efeito oposto.
Essas descobertas destacam a plasticidade do cérebro adulto e abrem novas perspectivas para a compreensão de condições como a depressão e a doença de Alzheimer (DA), que afetam desproporcionalmente as mulheres. De acordo com a Alzheimer’s Association (2023)6, elas representam quase 70% dos casos de doença de Alzheimer (DA). Além disso, a Organização Mundial da Saúde (2017)7 relata que as mulheres têm 1,5 a 2 vezes mais chances de desenvolver depressão do que os homens, representando aproximadamente 65% dos casos globais.
Essa é a prova de que entender o cérebro feminino não é apenas uma questão de equidade, mas de saúde pública.
2. Da hiperêmese à pré-eclâmpsia – avanços que estão revolucionando a saúde materna

Enjoos, náuseas e vômitos são quase um sinônimo de gravidez, certo? Mas não deveriam ser. Para algumas mulheres, esses sintomas ultrapassam o esperado e se transformam em algo incapacitante: a hiperêmese gravídica (HG). Esse quadro, que afeta entre 0,3% e 3,6% das gestantes, vai muito além de um simples mal-estar matinal.8
Por muito tempo, a HG foi subestimada ou até mesmo atribuída a fatores psicológicos, deixando muitas mulheres sem o apoio necessário. Mas a ciência está mudando essa história. Pesquisas recentes identificaram o hormônio GDF15 como um dos grandes responsáveis pela condição. Produzido pela unidade feto-placentária, ele pode estar em níveis elevados nas gestantes que sofrem com a HG, explicando a intensidade dos sintomas.8
Essa descoberta abre portas para novas abordagens e tratamentos mais eficazes, trazendo esperança para milhares de mulheres que, até hoje, precisavam apenas “aguentar” esse sofrimento. Afinal, gravidez deveria ser um momento de expectativa e alegria — não de luta diária contra o próprio corpo.
Uma outra condição que afeta entre 1,5% e 16,7% das gestações em todo o mundo, resultando em aproximadamente 60.000 mortes maternas e mais de 500.000 nascimentos prematuros anualmente, é a pré-eclâmpsia.9 No Brasil, uma revisão integrativa indicou uma prevalência acumulada de pré-eclâmpsia de 6,7%.10
Recentemente, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos aprovou o sistema de testes BRAHMS sFlt-1/PlGF KRYPTOR. Este exame de sangue avalia a relação entre duas proteínas placentárias: sFlt-1 e PlGF. Recomendado entre a 23ª e a 35ª semana de gestação, o teste auxilia na identificação precoce de gestantes hospitalizadas com distúrbios hipertensivos que apresentam risco aumentado de desenvolver pré-eclâmpsia com características graves nas duas semanas subsequentes, permitindo intervenções preventivas oportunas.
Avanços adicionais na saúde materna:
Além das inovações mencionadas, outros progressos têm contribuído para a melhoria da saúde materna:
- Anemia: a anemia é uma condição comum durante a gravidez, podendo levar a complicações maternas e fetais. Estudos indicam que a administração de ferro intravenoso é mais eficaz no tratamento da anemia grave em gestantes do que os suplementos orais tradicionais, proporcionando uma recuperação mais rápida dos níveis adequados de hemoglobina.11
- Prevenção de sepse pós-parto: a sepse pós-parto representa uma ameaça significativa à saúde materna. Pesquisas recentes demonstraram que a administração de uma única dose de azitromicina durante o parto vaginal pode reduzir o risco de infecções em até 33%, oferecendo uma estratégia simples e eficaz para a prevenção dessa condição.12
Esses avanços ressaltam a importância contínua de investir em pesquisas focadas na saúde materna. A implementação de novas tecnologias e tratamentos baseados em evidências científicas é fundamental para garantir gestações mais seguras e saudáveis para todas as mulheres.
3. Ondas de calor na menopausa: mais do que um incômodo, um sinal de alerta – mas há esperança

As ondas de calor são frequentemente tratadas como um “ritual de passagem” na menopausa, algo que toda mulher deve aceitar como parte natural do envelhecimento. Mas e se elas fossem mais do que isso? E se esses calores súbitos, especialmente aqueles que nos acordam no meio da noite, fossem um sinal de que nosso corpo está tentando nos dizer algo importante?
Estudo apresentado na The Menopause Society 2023 Annual Meeting revelou que as ondas de calor, principalmente durante o sono, podem ser um sinal precoce de risco para DA. Na pesquisa com cerca de 250 mulheres entre 45 e 67 anos, os cientistas monitoraram a qualidade do sono e a ocorrência de ondas de calor durante três noites. Além disso, coletaram amostras de sangue para analisar o biomarcador beta-amilóide 42/40, uma proteína associada ao desenvolvimento da DA.13
Os resultados foram alarmantes: um número maior de ondas de calor foi diretamente correlacionado com um risco aumentado de Alzheimer. Esses achados reforçam a necessidade de olharmos para os sintomas da menopausa com mais atenção – não como meros incômodos, mas como potenciais marcadores de saúde neurológica.
Mas, calma, nem tudo são más notícias. Há uma luz no fim do túnel, e ela também vem da ciência. Pesquisadores descobriram que os neurônios KNDy, localizados no hipotálamo, são os grandes responsáveis por essas ondas de calor. Com a queda do estrogênio durante a menopausa, esses neurônios ficam hiperativos, liberando mensageiros químicos que desencadeiam os calores.14
A boa notícia? Novos tratamentos não hormonais estão surgindo para ajudar a controlar esse processo. O fezolinetant, aprovado pela FDA em 202315, bloqueia o receptor que ativa esses neurônios, oferecendo alívio para as ondas de calor. E tem mais: o elinzanetant, atualmente em ensaios clínicos de fase III, não só atua no mesmo receptor, mas também interfere em outro ligado à insônia, prometendo uma abordagem ainda mais completa para os sintomas da menopausa.16
O futuro é delas – por uma ciência que cuida de todas as mulheres

A ciência está, finalmente, começando a corrigir séculos de negligência. Em 2016, o NIH implementou uma política que exige a inclusão de fêmeas e mulheres em pesquisas biomédicas. Desde então, os investimentos em estudos focados na saúde feminina têm aumentado, com um crescimento de 30% nos financiamentos para pesquisas sobre menopausa, saúde materna e condições específicas das mulheres.17
Mas ainda há muito a ser feito. Precisamos de mais pesquisas, mais financiamento e mais conscientização sobre as necessidades únicas das mulheres. Como mulheres, sabemos que nossa saúde importa. E, como cientistas, estamos determinadas a garantir que a ciência finalmente nos veja. Porque, no fim das contas, cuidar das mulheres é cuidar do futuro de cada um de nós.
- BEERY, A. K.; ZUCKER, I. Sex bias in neuroscience and biomedical research. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 35, n. 3, p. 565-572, 2010.
- GOVERNMENT ACCOUNTABILITY OFFICE (GAO). Women’s health: FDA needs to ensure more study of gender differences in prescription drug testing. GAO Report, n. GAO-93-17, 1992.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). FDA drug safety communication: risk of next-morning impairment after use of insomnia drugs; FDA requires lower recommended doses for certain drugs containing zolpidem (Ambien, Ambien CR, Edluar, and Zolpimist). FDA Safety Announcement, 2013.
- WOODRUFF, T. K. et al. A view from the trenches: a survey of scientists on sex inclusion in research. PLoS Biology, v. 17, n. 4, p. e3000113, 2019.
- Zsido, R.G., Williams, A.N., Barth, C. et al. Ultra-high-field 7T MRI reveals changes in human medial temporal lobe volume in female adults during menstrual cycle. Nat. Mental Health 1, 761–771 (2023).
- Alzheimer’s Association. 2023 Alzheimer’s Disease Facts and Figures. Alzheimer’s & Dementia, v. 19, n. 4, p. 1598-1695, 2023.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. WHO, 2017.
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- FIocruz. Pré-eclâmpsia – Protocolo 2023. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, 2023. Disponível em: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/biblioteca/pre-eclampsia-protocolo-2023/. Acesso em: 21 fev. 2025.
- OLIVEIRA, A. C. et al. Prevalência da pré-eclâmpsia no Brasil: revisão integrativa da literatura. PubMed, 2022.
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- AZITROMICINA para prevenir sepse ou morte em mulheres que planejam parto vaginal. InforMed, 16 fev. 2023.
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- FDA Approves Novel Drug to Treat Moderate to Severe Hot Flashes Caused by Menopause. Disponível em: <https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-novel-drug-treat-moderate-severe-hot-flashes-caused-menopause>.
- Pinkerton JV, Simon JA, Joffe H, et al. Elinzanetant for the Treatment of Vasomotor Symptoms Associated With Menopause: OASIS 1 and 2 Randomized Clinical Trials. JAMA. 2024;332(16):1343–1354.
- NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH (NIH). Policy on sex as a biological variable. NIH Office of Research on Women’s Health, 2016.
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