Fake news: o papel de profissionais da saúde e cientistas na era da desinformação
A importância de especialistas se comunicarem de forma adequada na internet


Por Iasmin Moreira
Medical Writer
Biotecnologista e redatora de conteúdo voltado para saúde e ciência
A desinformação consiste na disseminação de informações falsas criadas e compartilhadas conscientemente para causar danos. E este não é um fenômeno novo. Desde os primórdios da imprensa, a humanidade convive com informações falsas que moldam percepções e influenciam decisões.1
Com o advento da internet e das redes sociais, a velocidade e o alcance da desinformação atingiram níveis alarmantes.1,2 Na área da saúde, esse cenário é especialmente preocupante, pois as fake news colocam vidas em risco, além de comprometerem políticas públicas e avanços científicos.1,3
Quem nunca recebeu uma mensagem de um familiar ou amigo dizendo que vacinas causam câncer? Ou então se deparou com um comentário em uma postagem afirmando que uma pesquisa de uma universidade famosa provou que um remédio cura a dengue?
Quando as pessoas recebem informações falsas, elas avaliam se acreditam ou não no que estão lendo ou ouvindo. Essa avaliação depende de três fatores principais:1
1. A fonte da informação;
2. Como a história é contada;
3. O contexto em que ela aparece.
Além disso, a chance de essa desinformação se espalhar depende do quanto as pessoas desconfiam ou questionam o conteúdo que recebem.1
O poder das fake news na saúde: um risco global
A desinformação na saúde possui impactos globais, como vimos durante a pandemia de COVID-19. Desde o uso de medicamentos ineficazes até a desqualificação de medidas comprovadamente seguras, como o uso de máscaras e a vacinação, foi criado um cenário de caos e desconfiança pelas fake news.4
O movimento antivacina, por exemplo, ganhou força nas redes sociais e foi associado a surtos de doenças já controladas, como o sarampo, em países como Reino Unido, EUA e Alemanha.1 No Brasil, a queda nas coberturas vacinais a partir de 2016 foi um reflexo direto da disseminação de informações falsas sobre imunização.4
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece:
- A desinformação é uma das maiores ameaças à saúde global.4
- Em muitas plataformas digitais, notícias falsas têm 70% mais chances de serem compartilhadas do que informações verdadeiras.2
No Brasil, o combate a esse problema tem sido uma prioridade. Durante o primeiro dia do encontro do G20 que ocorreu no Rio de Janeiro, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, defendeu a criação de uma aliança internacional para enfrentar a desinformação em saúde. Ela apresentou a iniciativa Saúde com Ciência, uma plataforma interministerial focada na disseminação de informações confiáveis, especialmente sobre vacinas. Em seu primeiro ano, a plataforma analisou cerca de 100 mil conteúdos e comentários que espalhavam mitos prejudiciais sobre imunização, como a falsa relação entre a vacina da Covid-19 e doenças graves. A ministra destacou que a desinformação pode causar mortes e reforçou a necessidade de cooperação global para garantir que políticas de saúde sejam baseadas em evidências científicas.
Por que as fake news se espalham tão rápido?
A resposta está na forma como consumimos e compartilhamos informações na era digital.
As redes sociais, ao mesmo tempo que democratizam o acesso ao conhecimento, também permitem que qualquer pessoa publique conteúdo sem a verificação dos fatos.1 Além disso, os algoritmos dessas plataformas priorizam conteúdos que geram engajamento, muitas vezes privilegiando mensagens sensacionalistas ou emocionalmente carregadas.3,5,6
Essas narrativas de desinformação costumam ser carregadas de tom pessoal, negativo e opinativo, explorando emoções como medo, ansiedade e desconfiança em relação às instituições. E quando as pessoas estão com medo ou inseguras, ficam mais vulneráveis a acreditar e compartilhar informações falsas.1
O grande desafio das informações erradas é que, uma vez que elas se fixam na mente das pessoas, fica muito difícil corrigi-las.3
Um exemplo clássico é a falsa ligação entre vacinas contra doenças infecciosas imunopreveníveis e autismo: mesmo com o consenso científico comprovando que não há relação, muitos pais ainda optam por não vacinar seus filhos com base nessa desinformação.3
O resultado? Aumento de hospitalizações e mortes que poderiam ser evitadas.3
Desinformação nas redes sociais
A desinformação sobre saúde nas redes sociais costuma girar em torno de seis temas principais:6
1. Vacinas;
2. Dietas e distúrbios alimentares;
3. Medicamentos;
4. Pandemias e doenças transmissíveis;
5. Doenças não transmissíveis;
6. Tratamentos médicos e intervenções de saúde.
O que chama a atenção é que muitas dessas discussões online usam uma linguagem que parece científica, com argumentos aparentemente lógicos. Há uma mistura de tom “científico” com relatos pessoais que faz com que as informações falsas se espalhem rapidamente, especialmente quando ganham muitos likes, compartilhamentos e visualizações.6
Outro fator preocupante é a dinâmica das comunidades online. Grupos mais expostos a informações negativas sobre vacinas, por exemplo, tendem a compartilhar ainda mais desinformação ou opiniões que reforçam a hesitação vacinal.6
Isso dificulta a construção de um consenso público sobre a segurança e a eficácia de vacinas importantes, como as do HPV, sarampo, caxumba, rubéola e gripe, levando a um cenário no qual a desinformação ganha força e coloca a saúde pública em risco.6
CURIOSIDADE: Por que as pessoas continuam acreditando em informações falsas, mesmo quando são corrigidas?
A ciência já identificou algumas razões para isso:
- Lacuna na compreensão: quando uma informação errada é corrigida, isso pode criar uma sensação de desconforto. Para evitar esse incômodo, muitas pessoas preferem simplesmente ignorar a correção.3
- Falhas de memória: às vezes, as pessoas se lembram da informação errada, mas esquecem que ela foi desmentida. Ou pior: confundem qual fonte estava certa e qual estava errada.3
- Familiaridade: quanto mais uma informação falsa é repetida, mais familiar ela parece. E, para o cérebro, o que é familiar parece verdadeiro.3
- Rejeição à autoridade: ninguém gosta de ser contrariado. Por isso, quando alguém tenta corrigir uma crença, a tendência é que a pessoa rejeite a correção, especialmente se ela for percebida como autoritária.3
Neste contexto, qual o papel dos profissionais da saúde e cientistas?
Diante desse cenário, cientistas e profissionais da saúde como os médicos têm um papel fundamental: se tornarem fontes confiáveis de informação. No entanto, apenas produzir conhecimento não basta. É preciso comunicá-lo de forma clara, acessível e engajadora.7
Dito isso, a credibilidade da fonte é essencial para corrigir informações incorretas.7
Uma pesquisa publicada na revista Nature Human Behavior em 2025, com 71,922 entrevistados de 68 países em todos os continentes habitados, revelou que:7
83% dos entrevistados gostariam que mais esforços fossem investidos na comunicação sobre ciência com o público.7
Por isso, se os cientistas querem conquistar a confiança do público, precisam adotar uma postura mais aberta e transparente de divulgadores científicos, incluindo:7
1. Estarem dispostos a ouvir feedback;7
2. Serem claros sobre de onde vêm os recursos financeiros para suas pesquisas;7
3. Explicarem como os dados são coletados e usados.7
Além disso, a comunicação vertical, tradicionalmente usada na ciência, já não é suficiente. Precisamos adotar uma abordagem horizontal, criando diálogos acessíveis ao público que leve em consideração seus contextos, dúvidas, medos e crenças.7
Isso porque, a confiança na ciência e nos cientistas é fundamental para ajudar pessoas a tomar decisões mais informadas com base em evidências sólidas e combater a desinformação.7
No Brasil, a pesquisa “Confiança na Ciência em Tempos de Pandemia” revelou dados importantes. Foram entrevistadas 2.069 pessoas em municípios de todas as regiões do país.8
Os resultados mostram que, embora a confiança na ciência e nos cientistas brasileiros seja alta, ela foi abalada pelas campanhas de desinformação que cresceram durante a pandemia de COVID-19, levando a um cenário que em média:8
A Ybrida no combate à desinformação
Na Ybrida, entendemos que a luta contra a desinformação é uma missão coletiva. Por isso, nos posicionamos como aliados de cientistas, profissionais e instituições de saúde, oferecendo ferramentas e estratégias para uma comunicação criativa, eficaz e baseada em evidências.
Nossa abordagem inclui:
- Construção de materiais didáticos e informativos que ajudam a desmistificar conceitos científicos e combater narrativas falsas.
- Capacitação de profissionais da ciência e/ou saúde para que possam se comunicar de forma mais assertiva e engajadora.
- Parcerias estratégicas com instituições de saúde e universidades para amplificar o alcance de mensagens baseadas em evidências.
“Como profissional da saúde e cientista, vejo com preocupação o impacto da desinformação na tomada de decisões em saúde. Quando notícias falsas têm mais alcance do que as verdadeiras, o esforço de anos de pesquisa pode ser desfeito em minutos por uma única postagem viral. Isso compromete não apenas a confiança na ciência, mas também a adesão a tratamentos eficazes, colocando vidas em risco e dificultando o combate a crises sanitárias.
Como comunicóloga, vejo diariamente como a comunicação científica precisa evoluir para acompanhar esse cenário. Não basta produzir conteúdo de qualidade se ele não chega ao público de forma estratégica e acessível. É nosso papel, enquanto especialistas, garantir que a ciência esteja presente nos espaços de debate, traduzindo conhecimento de forma clara e engajadora. Trabalhamos com clientes que enfrentam desafios semelhantes – desde campanhas de vacinação até comunicação sobre novos tratamentos – e sabemos que a confiança do público não se constrói apenas com evidências, mas com diálogo constante e sensibilidade às percepções da sociedade.
Se queremos combater as fake news de forma eficaz, precisamos unir ciência e estratégia de comunicação. Isso significa estar onde as pessoas estão, adaptar a linguagem sem perder a precisão e investir em conteúdos que sejam não apenas informativos, mas também envolventes. O compromisso com a verdade científica não pode ser reativo; precisa ser ativo, consistente e, acima de tudo, acessível.”
Natany Garcia Reis
Biomédica e Doutora em Ciências
Coordenadora de Conteúdo Técnico-Científico na Ybrida
Tendências e desafios da comunicação científica
Olhando para o futuro, é possível prever que a desinformação continuará a ser um desafio significativo, especialmente em meio a crises de saúde pública.3 No entanto, também há oportunidades:
1. A união entre governo, instituições de saúde, plataformas digitais e sociedade civil será essencial para criar um ecossistema de informação mais seguro.5,9
2. Investir em alfabetização midiática e científica é fundamental para capacitar as pessoas a discernirem entre fatos e ficção.9
A ciência como farol em tempos de desinformação
A desinformação é um problema complexo, mas não intransponível. Cientistas, médicos e comunicadores têm o poder de mudar essa narrativa, desde que estejam dispostos a adotar novas estratégias e a se conectar genuinamente com o público.5,7-9
A luta contra as fake news é uma batalha de todos.
E você, está pronto para fazer parte dessa mudança?
Referências Bibliográficas
1. WANG, Yuxi; MCKEE, Martin; TORBICA, Aleksandra; et al. Systematic Literature Review on the Spread of health-related Misinformation on Social Media. Social Science & Medicine, v. 240, n. 112552, 2019.
2. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Combatting misinformation online. World Health Organization. Disponível em: <https://www.who.int/teams/digital-health-and-innovation/digital-channels/combatting-misinformation-online>. Acesso em: 31 jan. 2025.
3. VAN DER MEER, Toni G. L. A. ; JIN, Yan. Seeking formula for misinformation treatment in public health crises: The effects of corrective information type and source. Health Communication, v. 35, n. 5, p. 560–575, 2020.
4. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Combate à desinformação na área da saúde: uma luta de todos. Ministério da Saúde. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2024/maio/combate-a-desinformacao-na-area-da-saude-uma-luta-de-todos>. Acesso em: 31 jan. 2025.
5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Collaboration is key to countering online misinformation about noncommunicable diseases –new WHO/Europe toolkit shows how. World Health Organization. Disponível em: <https://www.who.int/europe/news-room/20-10-2022-collaboration-is-key-to-countering-online-misinformation-about-noncommunicable-diseases–new-who-europe-toolkit-shows-how>. Acesso em: 3 fev. 2025.
6. SUAREZ-LLEDO, Victor ; ALVAREZ-GALVEZ, Javier. Prevalence of health misinformation in social media: A systematic review. Journal of Medical Internet Research, v. 23, n. 1, 2021.
7. COLOGNA, Viktoria; MEDE, Niels G.; BERGER, Sebastian; et al. Trust in scientists and their role in society across 68 countries. Nature Human Behaviour, 2025.
8. MASSARANI, Luisa; POLINO, Carmelo; MOREIRA, Ildeu; et al. Confiança na ciência no Brasil em tempos de pandemia. Resumo executivo. [s.l.: s.n., s.d.]. Disponível em: <https://www.inct-cpct.ufpa.br/wp-content/uploads/2022/12/Resumo_executivo_Confianca_Ciencia_VF_Ascom_5-1.pdf>. Acesso em: 31 fev. 2025.
9. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Infodemics and misinformation negatively affect people’s health behaviours, new WHO review finds. World Health Organization. Disponível em: <https://www.who.int/europe/news-room/01-09-2022-infodemics-and-misinformation-negatively-affect-people-s-health-behaviours–new-who-review-finds>. Acesso em: 3 fev. 2025.
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